Este post é mais técnico, trata-se de uma análise sobre os recursos retóricos utilizados por Carlo Collodi na formação do ethos do personagem Pinóquio.
Carlo Collodi é o pseudônimo de Carlo Lorenzini, nascido em Florença, em 1826, berço do renascentismo. Ele escreveu sob o pseudônimo de Carlo Collodi, em referência ao vilarejo de sua mãe.
Pinóquio foi escrito inicialmente em pequenos capítulos, publicados em um jornal infantil, com o nome de “Storia de um burattino” (História de um boneco). Recentemente, foi reeditado no Brasil com uma edição de luxo da Cosac Naify, traduzida por Ivo Barroso com posfácio de Ítalo Calvino.
Dizem que Collodi queria oferecer leitura agradável e instrutiva às crianças da época. Dizem também que estava frustrado com a unificação italiana até então, decepcionado na verdade com o rumo político, vendo a liberdade e a individualidade ameaçadas. O certo é que ele criou um personagem, um boneco, transgressor, travesso, que busca o seu próprio benefício, sempre.
Pinóquio é um boneco menino, ou menino boneco, que podemos classificar como anti-herói se pensarmos no gênero épico. É importante entender o que significa ser um anti-herói, e para isso vou recorrer à explicação de Christiopher Vogler no seu famoso “A Jornada do Escritor”:
“…um anti-herói não é o oposto de um herói, mas um tipo especial, alguém que pode ser um marginal ou um vilão, do ponto de vista da sociedade, mas com quem a platéia se solidariza, basicamente. E nos identificamos com esses marginais porque todos nós, uma ou outra vez na vida, nos sentimos marginais.”
Essa definição retrata bem o texto de Collodi. Pinóquio é o anti-herói, o menino boneco travesso que percorre toda sua trajetória do herói. Trajetória completa, com o chamado à aventura, encontro com mentor, os testes, aliados e inimigos, a caverna oculta e a provação, culminando na recompensa e na ressurreição.
O interessante agora é analisarmos como a linguagem constrói o ethos do personagem, deste anti-herói, e para isso é essencial entender bem o que é ethos.
“Para os gregos, o éthos é a imagem de si, o caráter, a personalidade, os traços de comportamento, a escolha de vida e dos fins. […] O éthos é uma excelência que não tem objeto próprio, mas se liga à pessoa, à imagem que o orador passa de si mesmo […] O éthos se apresenta de uma forma geral como aquele ou aquela com quem o auditório se identifica” (MEYER, pg 34 e 35)
“A prova do ethos consiste em causar uma boa impressão por meio do modo como se constrói o discurso, em dar de si uma imagem capaz de convencer o auditório a ganhar sua confiança.” (MAINGUENEAU, pg 266)
Como vemos nas citações acima, o ethos é a personalidade, o comportamento do personagem. Ele é construído e percebido pelo discurso , mas não é objeto direto do discurso. O ethos é lido nas entrelinhas do texto, na percepção que o leitor tem sobre o personagem e sobre a confiabilidade com a qual ele identifica essas características.
Acredito que o ethos começa a aparecer já no título do primeiro capítulo: “Como foi que o mestre Cerejo, o carpinteiro, encontrou um pedaço de pau que ria e chorava como uma criança”. Mestre Cerejo já traz uma mensagem cômica, ao rebaixar um mestre (que seria ou culto ou dotado de alguma grande expertise técnica) com o apelido de Cerejo, a um indício de sátira que será explicado a seguir. Pinóquio já começa caracterizado como um pedaço de pau, ainda não tem nome ou forma, uma espécie de rebaixamento do protagonista, também indicando a sátira, mas tem vida, ri e chora. Esse rebaixamento é, de certa forma e guardadas as devidas propoções, semelhante às mensagens implícitas no título da obra Dom Quixote, de Cervantes.
E o primeiro capítulo começa com “Era uma vez…”. Esse início remete imediatamente a narrativa para o campo dos contos de fadas. Uma introdução absolutamente tradicional, que introduz um conto do gênero maravilhoso que envolve um pedaço de pau que ri e chora.
A segunda frase segue nesse caminho: “– Um rei – dirão logo os meus pequenos leitores.”. Aqui, ainda no conto de fadas, o narrador deixa claro que fala com crianças, pequenos leitores. Essa é uma declaração importante, pois toda a verossimilhança e exposição do ethos deve então estar incorporada em um texto capaz de ser percebido pelo universo infantil.
As frases seguintes quebram completamente essa narrativa clássica:
“Não, meninos, vocês se enganaram. Era uma vez um pedaço de pau.
Não de madeira de lei, mas um simples pedaço de lenha, desses que no inverno atiramos nos fogões e nas lareiras para acender o fogo e aquecer os aposentos.”
Essas frases mostram nitidamente que se trata de uma saga de um anti-herói. Deixam claro que não é um rei ou príncipe ou princesa, o protagonista é apenas um pedaço de pau. E o pau não é nem de madeira de lei, é simples lenha mesmo. Esse rebaixamento excessivo é uma chave de leitura importante, mostra que estamos lendo a saga de um anti-herói, recheada de sátira, no campo do conto fantástico-maravilhoso.
O conto maravilhoso é um subgênero do conto fantástico, como explica Todorov:
“No caso do maravilhoso, os elementos sobrenaturais não provocam qualquer reação particular nem nas personagens, nem no leitor implícito. Não é uma atitude para com os acontecimentos narrados que caracteriza o maravilhoso, mas a própria natureza desses acontecimentos.” (TODOROV, pg 60)
“O maravilhoso implica que estejamos mergulhados num mundo de leis totalmente diferentes das que existem no nosso; por este fato, os acontecimentos sobrenaturais que se produzem não são absolutamente inquietantes. […] trata-se realmente de um acontecimento chocante, impossível; mas que acaba por se tornar paradoxalmente possível.” (TODOROV, pg 180)
Neste texto de Collodi, apenas no primeiro capítulo há o estranhamento entre o mestre Cerejo e o pedaço de pau que ri e chora. No restante do livro, velhos, ciranças, guardas, todos parecem lidar bem com o sobrenatural, com marionetes que falam, raposa, fada, peixe-cão, crianças que viram asnos, etc.
Interessante notar que na introdução do primeiro capítulo, “Não, meninos, vocês se enganaram”, o narrador se refere apenas a meninos, masculino. Provavelmente, com o intuito de reforçar a verossimilhança do protagonista com os meninos leitores. Seriam esses meninos os afobados, aqueles que já imaginavam que seria um rei o protagonista, mas estavam equivocados. Esses são comportamentos esperados do ethos do Pinóquio.
E a sátira é destilada já no parágrafo seguinte:
“…de um velho carpinteiro chamado Antônio, embora todos o chamassem de Cerejo, por causa da ponta de seu nariz – sempre roxa, lustrosa, como uma cereja madura.”
Este parágrafo reforça o caráter satírico do nome Cerejo no título do primeiro capítulo, como havia destacado. E a explicação vem com o nariz. Todo ridículo, na retórica, parte ou da desproporção ou da metáfora. Neste caso, a desproporção de tamanho, cor e aparência do nariz trazem o ridículo para a caracterização do Mestre Cerejo. Além disso, merece detaque o fato de se tratar de um nariz. As descrições, segundo os protocolos da retórica, sempre começam pelo rosto ou cabeça. E o nariz, nos padrões aristotélicos, é característico do monstro, do monstruoso.
Aliás, o fato do nariz de Pinóquio crescer a cada mentira vem deste princípio aristotélico. Por que não cresce o dedo, ou a orelha, ou o queixo? O nariz grande e pontiagudo associa diretamente as mentiras do Pinóquio, sua versão mentirosa, com uma imagem monstruosa e não um herói-menino. (Também acredito que o nariz do mestre Cerejo seja roxo e lustroso para diferenciar do nariz pontiagudo do Pinóquio, mas esta crença só poderia virar afirmação com um volume de pesquisa maior…)
Todo este rebaixamento da narrativa que comentei também serve para a captação da benevolência, para que os leitores aceitem e se identifiquem com o anti-herói que se apresenta.
Conhecidos Cerejo e o pedaço de pau, o segundo capítulo introduz o personagem Geppetto. No mesmo parágrafo que apresenta o “velhinho muito vivo” Geppetto, o narrador já desconstrói sua imagem ao revelar que o seu apelido é Pamonha, porque usava uma peruca amarela, cor de angu de milho. De novo, uma aberração na descrição da cabeça, reforçando o ridículo. O narrador também aponta que, ao ser chamado de Pamonha, Geppetto costuma enfezar-se e não se contém.
E logo vem uma travessura do pedaço de lenha anti-herói, que chama Geppetto de Pamonha, e este briga ferozmente com mestre Cerejo. A briga só para, na verdade só pausa, com Cerejo segurando a peruca de amarela de Geppetto, e este mordendo a peruca grisalha do outro.
O terceiro capítulo reforça discretamente a descrição do ethos do Pinóquio, boneco travesso e egoísta, buscando sempre atender aos seus próprios desejos, em detrimento dos demais ou da sociedade.
O título do terceiro capítulo resume bem o seu propósito: “De volta à casa, Geppetto começa logo a fabricar o fantoche e lhe dá o nome de Pinóquio. Primeiras travessuras do boneco.” O protagonista perde o status de pedaço de pau e vira Pinóquio. O nome Pinóquio vem do dialeto italiano falado por Collodi, e significa pinhão. No italinao padrão, hoje, seu nome seria Pinolo. Ou seja, um nome que marca bem a origem deste fantoche. Vale destacar também que um dos objetivos de Collodi e de outros autores da época era contribuir para a definição ou consolidação de um idioma italiano unificado. Bom, o fato de ter um nome começa a humanizar o boneco, e ao humanizá-lo fica mais evidente seu caráter, o ethos, e aparecem as travessuras e transgressões.
Ao fazer os olhos do Pinóquio, estes ficavam encarando e perturbando Geppetto. Ao moldar a boca, o fantoche não parava de rir, tirando o velhinho do sério. Ao acabar as mãos, Pinóquio roubou a peruca dele. Geppetto ficou triste com a atitude insolente e ridícula do boneco. E Pinóquio já leva então sua primeira repreensão.
Após fazer as pernas e ensiná-lo a caminhar, Pinóquio sai correndo pela rua, até que um guarda o segura e devolve a Geppetto. Este tenta puxar a orelha do boneco, mas percebe que ainda não as esculpiu. (Mais um aberração, e o tom satírico da situação) O carpinteiro então ameaça o fantoche que resolve se jogar no chão e não andar para casa. As pessoas começam a defender o boneco, pobre coitado, das ameaças de Geppetto, imaginando o que o velho poderia fazer com ele. Diante disso, Geppetto é preso e o Pinóquio liberado!
O pai acaba então o capítulo chorando e chamando o filho, sim o pedaço de pau já se transformara em filho, de miserável. E o capítulo acaba com uma frase direta do narrador para os leitores: “O que aconteceu depois é uma história de não se acreditar, e contarei nos próximos capítulos.”. Ou seja, aqui começará a história, já com Geppetto e Pinóquio apresentados e caracterizados. A historia segue no fantástico, com metalinguagem entre o narrador e o leitor, e também mostra um exercício retórico da metalinguagem para tentar dar verossimilhança ao que passará a ser narrado.
A história acaba explorando bem o lugar-comum da relação criador e criatura. Pinóquio sempre some, desobedece as instruções e acaba envolvido em problemas, intrigas e perigos. Nas horas graves, sempre pensa no criador e em como deveria ter seguido seus conselhos, como sua presença resolveria tudo. O próprio fato de ser um fantoche também mostra bem o papel almejado do criador, de controle absoluto.
Vejamos outro trecho do capítulo VIII, quando Pinóquio tenta convencer Geppetto:
“– Todos os meninos, quando querem ganhar alguma coisa, repetem essa mesma história.
– Mas eu não sou como os outros meninos! Sou o melhor de todos e digo sempre a verdade. Eu prometo, papai, que vou aprender um ofício e que serei o consolo e o amparo de sua velhice.”
De novo, as características vão completando o ethos do Pinóquio. Um boneco travesso, transgressor, que sabe adotar chantagens emocionais, mentiroso também quando conveniente, e que sabe o que é correto, apesar de não usar muito essa informação, e que acaba arcando com as consequências de sua individualidade.
Outro bom exemplo do lugar-comum da relação criador e criatura é o final do capítulo XV, quando Pinóquio acaba enforcado pelos assassinos. Alí, à noite, pendurado no grande carvalho Pinóquio relembra do seu criador: “…voltou-lhe à mente a figura de seu pobre pai…ele balbuciou quase moribundo: – Ah, paizinho! se você estivesse aqui… E não teve fôlego para dizer mais nada. Fechou os olhos, abriu a boca, estirou as pernas e, dando uma grande estremeção, ficou ali enrijecido.” Um fato curioso é que Collodi de fato enforcou e matou Pinóquio. Foi o editor do jornal que o convenceu a ressuscitá-lo e seguir com a história.
No capítulo XXI Pinóquio também lembra de seu criador, em mais um momento de arrependimento e resignação: “– Bom feito! Ora, muito bem feito! Quis bancar o indolente, o vagabundo; quis dar trela às más companhias, e por causa disso a má sorte sempre me persegue. Se me comportasse como um menino de bem como há tantos por aí, se tivesse vontade de estudar e de trabalhar, se tivesse ficado em casa com meu pobre paizinho, numa hora destas não me encontraria aqui, no meio do mato, a bancar o cão de guarda da casa de um camponês. Ah se eu pudesse nascer de novo!… Mas agora é tarde, e é preciso paciência.”
As desventuras de Pinóquio acontecem em ordem sequencial, a cada vez que se salva, tenta se redimir, mas acaba caindo em tentações de preguiça, de desviar das instruções e de sua consciência.
No final, semelhanto à jornada do herói, Pinóquio acaba engolido pelo temível Peixe-Cão. Este seria, metaforicamente uma espécie de caverna oculta ou gruta, na qual o herói morre para renascer (alguns cehgam a comparar com um útero materno) em um verdadeiro ritual de transformação de caráter. E nesse renascimento, Pinóquio reencontra Geppetto no bucho do Peixe-Cão. Eles escapam e, finalmente, Pinóquio consegue se transformar em menino.
Referências bibliográficas
COLLODI, Carlo. As aventuras de Pinóquio, história de um boneco, trad. Ivo Barroso. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
COLLODI, Carlo. Pinóquio, trad. Carolina Cimenti. Porto Alegre: L&PM, 2005.
MAINGUENEAU, Dominique. O ethos, in: Discurso Literário. São Paulo: Editora Contexto, 2009.
MEYER, Michel. A retórica. São Paulo: Editora Ática, 2007.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2010.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1998.