Seleção nada natural

Uma viagem de ônibus não parece ser o convite mais interessante para um programa de férias. Principalmente, se for uma viagem no fim do dia, clima quente, ônibus cheio, destino distante. Companhia é tudo nessa vida, e um trajeto desses ao lado de Rubens Figueiredo em “Passageiro do fim do dia” pode transcender o senso comum. Uma verdadeira epopeia moderna do proletariado para sobreviver à seleção natural.

Seria possível isso, um darwinismo do século XXI? A literatura pós-moderna aborda insistentemente a jornada do assalariado, mas desta vez há de fato uma analogia às teorias darwinianas, o que justifica combater o melancólico impulso de largar o livro na estante da loja.

Pedro, protagonista, é um personagem pouco dotado intelectualmente, apaixonado por livros e chega a se tornar proprietário de um sebo, graças a uma indenização pública por ter sido atropelado pela polícia durante um protesto. A construção da verossimilhança deste personagem tem complexidade ímpar e destaca o abismo existente entre sonho e realidade na sociedade atual.

O livro de Darwin é testemunha do protesto, apesar de não sobreviver à ação policial. Reaparece no sebo de Pedro e, a partir daí, acompanha o protagonista na crescente tensão envolvida com o retorno ao lar. Alguns trechos são lidos no ônibus, como a disputa entre uma aranha e uma vespa, e até mesmo um embate entre o próprio Darwin e um escravo. Hoje não há como chamar a seleção de natural, mas sem dúvida está presente na natureza social contemporânea.

A imagem do acidente de Pedro, com uma cavalo policial pisoteando seu tornozelo é marcante e repetida. O narrador destaca um ângulo diferente da cena, um enquadramento novo, a visão do pisoteado muito próxima do peito avermelhado e fumegante do animal. Uma descrição simples, sem exageros e inovadora. Seria este já o primeiro registro da seleção natural, figurada na opressão policial aos comunistas de forma extremamente real?

Os militares participam do livro de mãos dadas com a ironia do autor. No início, de forma opressora e no decorrer da trama a mínima inteligência dos soldados gritadores de “sim senhor” é ridicularizada nos episódios do soldado Trinta como sentinela no quartel ou na sua interpelação do major. As críticas não são exclusivas aos militares, o papel dos advogados é igualmente lembrado.

Ao longo da história, o tornozelo operado segue acordando o personagem a ferroadas. O narrador em terceira pessoa permite que o leitor acompanhe a mente nada linear do Pedro, sem entregar o enredo de forma direta. As suas seguidas digressões mentais no trajeto de ônibus vão moldando o enredo, em uma viagem tensa sem fim que acontece todos os dias. Há uma verdadeira simbiose entre a narrativa e o protagonista a cada digressão, sempre envolvendo novos personagens e novas peças deste quebra-cabeça. A história não acaba, não se sabe onde chegará o ônibus, mas o quebra-cabeça está completo. E a cada leitura aparece uma peça nova.

A indenização pública conquistada por Pedro, por seu amigo advogado na realidade, joga um viés de fortuna, sorte, escolha divina na sobrevivência do rapaz. Esta seria a seleção nada natural, quase sobrenatural, na qual residem as esperanças de toda uma parcela da população.

O contexto desta história internaliza no livro uma série de dramas sociais, não necessariamente com fins apenas literários. Cria-se um retrato atual das classes de menor renda, apostando suas esperanças em inscrições e sorteios de benesses públicas, o loteamento do que se ganha em termos de terrenos e moradias, as disputas entre bairros e suas facções criminosas de tráfico ou milícias e a lotação do transporte público.

E estes dramas não tem fim, assim como a viagem cotidiana de Pedro. A editoração sem qualquer quebra de capítulos, reforça o fator de continuidade do trajeto. A manipulação temporal, apoiada nas digressões, evita a narração cronológica dos fatos e permite ligações de causalidade e ironia entre eventos distantes entre si.

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