O poema “A Poesia” de Francisco Alvim é o responsável pelo nome de seu livro mais recente: “O Metro Nenhum”. Trata-se do primeiro livro de Chico Alvim desde “O Elefante” de 2000. Atraído pelo título, mergulhei no livro e me deparei com detalhes milimétricos da composição deste poema.
O poema é curto, vinte e três linhas divididas em duas estrofes. Não é simétrico, a primeira estrofe tem treze linhas e a segunda dez, não tem estrutura rígida de versos e rimas. Essa assimetria é apenas um breve e simples exemplo da profunda distância entre a abordagem de cada estrofe. O espaço de uma linha em branco entre as estrofes ilude, transmite uma aparente proximidade, uma continuação, quando na verdade o leitor desprevenido é pego de surpresa.
A primeira estrofe busca, e consegue, pretensiosamente, sintetizar a história da lírica brasileira de acordo com a opinião geral. Já a segunda estrofe, mergulha o leitor em um labirinto de palavras e dimensões métricas em busca da medida perfeita.
Começando pelo título, Chico Alvim já declara que analisará a poesia. A poesia como substantivo, forma de expressão artística. Seria um elemento palpável, mensurável?
Então começa o poema, com o primeiro verso “Houve um tempo”. A expressão é quase um tradicional “Era uma vez”, traz uma noção clara de passado e aquela idéia de que a história vai começar.
O segundo verso “em que Schmidt e Vinicius”, segue com a história. Cita dois grandes poetas nacionais e deixa a curiosidade aguçada para os próximos versos. O que representariam aqui, no início da história da poesia, esses dois poetas?
O Modernismo já havia acabado e a chamada segunda geração era, principalmente, composta por Augusto Schmidt, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade. Vinicius e Schmidt talvez se destaquem nas análises críticas do período pelo sentimentalismo.
Em comum, ambos também foram diplomatas e compartilhavam ideais políticos desenvolvimentistas (alguns até rotulam de integralistas). Schmidt chegou a escrever discursos para Juscelino Kubitschek e foi o responsável pelo famoso slogan “50 anos em 5”.
Conservador, Schmidt produziu textos introspectivos, reflexivos, abordando temas como morte e sofrimento amoroso. Poemas em tom baixo, marcados pela repetição. Repetição de temas, palavras, versos, tudo. Essa crescente repetição marca o adensamento do poema, talvez a característica mais marcante da obra de Schmidt no contexto da literatura nacional.
Sem dúvida essas repetições não ajudam Schmidt a ganhar popularidade. Em um livro inteiro dedicado à poesia do século passado, “A Poesia Brasileira do século XX” de Italo Moriconi, Schmidt é apenas citado en passant em uma das 146 páginas. Seria falta de popularidade, ideologia política ou excesso de concorrentes? O fato é que Drummond e Bandeira elogiavam Schmidt.
Já Vinicius de Moraes era extremamente popular. Diplomata, foi aposentado pelo AI-5 depois de 26 anos de trabalho. Segundo o ex-presidente João Figueiredo, o motivo não seria político, mas sim vagabundagem…meses sem aparecer no trabalho e notória presença na boemia carioca. Verdade ou não, Vinicius era popular e sua poesia recheada de emoções românticas.
Essa postura popular também gerava críticas. Segundo João Cabral de Melo Neto, “o poeta Vinicius de Moraes seria um grande poeta ou maior se não escrevesse musiquinha popular”. Acredito que essa citação de João Cabral já basta para exemplificar o ponto.
O verso seguinte, “dividiam as preferências”, relaciona ambos e traz esse debate para o campo do gosto, da escolha. “como maior poeta do Brasil” é o verso que encerra a primeira parte da estrofe inicial. Nestes primeiros versos voltamos no tempo, analisando o Brasil literário do meio do século passado, imaginando os debates populares e dos críticos escolhendo quem seria o melhor poeta Brasileiro.
Sabemos que não era uma escolha trivial. Ambos, Vinicius e Schmidt, tinham fãs e críticos, não eram unanimidade.
Quando por unanimidade ou quase
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo
Drummond foi o escolhido
Chico Alvim segue seu jogo crítico nesta segunda parte. Drummond seria o escolhido como maior poeta do Brasil. A unanimidade, palavra forte que transmite certeza, é instantaneamente derrubada com o “ou quase” estrategicamente posicionado.
O verso “nesse jogo tolo” revela muito de Alvim. Deixa explícito seu julgamento ao chamar a escolha do maior poeta de um “jogo”. Todo jogo prevê ganhadores e perdedores, uma disputa instantânea, momentânea, que não tem caráter de verdade ou condição absoluta. Além disso, classifica o jogo como tolo, não há espaço para dúvidas.
Interessante pensar que nesse resumo suprassumo Francisco Alvim omitiu nomes como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Murilo Mendes. Seria uma manobra para deixar um vazio, algumas pontas e arestas sem explicação justamente para reafirmar o ponto de que a busca pelo maior poeta é complexa e, necessariamente, envolve uma definição contraditória de parâmetros de comparação?
Pode ser, mas de fato Drummond goza até hoje de uma aura de superioridade, de influência.
Vale destacar também o uso do verbo medir. Alvim, meticulosamente, começa aqui um debate sobre a medição, uma forma de se comparar tudo, inclusive coisas distintas.
ele comentou
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato sou
o maior poeta?
Não sei se de fato Drummond teria feito esse comentário, quase uma brincadeira ou piada, ou se se trata de uma criação de Alvim. De qualquer forma, uma expressão corriqueira bem humorada ajuda a chamar atenção do leitor para a fita métrica. Pode parecer uma piada aqui, mas a fita métrica é o instrumento usado para medição, e introduz uma reflexão sobre o que mediria um poeta.
Alvim anuncia então um mergulho no mundo da métrica. As palavras mediu, métrica e maior contextualizam a próxima estrofe. E esta começa assertiva: “Estava certo”. Alvim declara que Drummond tinha razão em cobrar uma medida. A piada-brincadeira que acaba a primeira estrofe ganha tons de seriedade no início da segunda.
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro –
nem o mais
nem o menos
Vejam que Alvim coloca uma condicionante para a poesia: “quando ocorre”. Interessante imaginar que às vezes se chega à poesia, e muitas vezes não. A poesia é perfeita, como o metro. Que comparação feliz, perfeição com metro.
E o diagnóstico é preciso, a perfeição é o metro, nem mais nem menos. Metro é um substantivo masculino que define uma unidade de medição, de comprimento. Ou seja, estamos novamente vendo o que é maior, qual poeta, qual poesia. Metro também tem como significado um instrumento de medição, do tamanho de um metro e graduado em centímetros. Basicamente, uma fita métrica…
E metro também pode significar a estrutura formal de um verso, em sílabas métricas. Pode ser mais uma faceta desse metro de Alvim. Estaria ele comparando o metro tradicional da poesia do início do século vinte (pré-modernismo) com esse metro perfeito, diferente, do verso livre?
Na matemática, o metro tem o mesmo papel, da perfeição. É curioso imaginar que existem infinitos números dentro de um metro. Infinitos. Entre zero e um há um infinito. Acima de um metro também. O metro acaba funcionando como uma tênue membrana real entre os infinitos.
O corpo humano é outro bom exemplo. O mundo em que vivemos é tangível, palpável. E temos um infinito em nós. Átomos, elétrons, quarks, e a cada dia os cientistas mergulham mais no infinito interior da matéria. No exterior, também há o infinito universal e nossos astrônomos cada vez chegam a pontos mais distantes no espaço. Vivemos num mundo perfeito nesse sentido, perfeito em sua dimensão, em seu plano espacial.
João Cabral também aborda essa noção de sobrenatural em seu poema chamado “Poesia” de 1937:
Deixa falar todas as coisas visíveis
deixa falar a aparência das coisas que vivem no tempo
deixa, suas vozes serão abafadas.
A voz imensa que dorme no mistério sufocará a todas.
Deixa, que tudo só frutificará
na atmosfera sobrenatural da poesia.
O tempo e o sobrenatural jogam a poesia para outra dimensão. E qual seria essa dimensão?
Voltando para a poesia de Chico Alvim, vemos que ele também questiona essa dimensão:
– só que de um metro nenhum
um metro ninguém
um metro de nadas
Uma dimensão onde o metro não mede pessoas. Tampouco mede coisas, objetos, textos. Um metro nenhum, um metro sobrenatural, um metro imaginário.
Em álgebra linear, aprende-se que matematicamente é fácil calcular funções com quatro ou mais dimensões, utilizando-se conceitos de geometria analítica e a definição de espaços vetoriais. No mundo em que vivemos, é difícil imaginar algo diferente das três tradicionais dimensões: altura, largura e comprimento/profundidade.
A quarta dimensão, o tempo, também já é imaginável graças a Wells, Asimov e Hollywood. Para os mais técnicos, há também a dimensão imaginária na matemática, que são os números complexos. Esses números são representados por “i” que se trata da raiz quadrada de -1. Parece estranho ou surreal? Por incrível que pareça, esses números estão presentes em nosso dia a dia e fundamentam toda energia indutiva, presente em linhas de transmissão de energia, em aparelhos tocadores de DVD, etc.
Quinta, sexta, sétima? Seriam dimensões artísticas, o efeito sobrenatural que transcende uma obra perfeita? Seriam as faces do poema?
Alvim nos deixa com o metro nenhum, a medida do verso livre perfeito, a métrica que ele mesmo persegue desde o início de sua poesia marginal nos anos 60.
Impossível pensar no verso livre e não se lembrar de Drummond e, conseqüentemente, na sua citação na primeira estrofe desta Poesia de Alvim. Como destaca Antonio Candido no seu texto “Inquietudes na poesia de Drummond” de 1965:
“Na verdade, com ele e Murilo Mendes o Modernismo brasileiro atingiu a superação do verso, permitindo manipular a expressão num espaço sem barreiras, onde o fluido mágico da poesia depende da figura total do poema, livremente construído, que ele entreviu na descida ao mundo das palavras.”
Ele, é Drummond. Antonio Candido teria, em 1965, quarenta e cinco anos antes deste poema de Alvim, descrito o metro nenhum. O metro que supera o verso, está presente em um espaço sem barreiras, permeado pelo fluido mágico (ou sobrenatural como diria João Cabral) da poesia e que só considera a forma total do poema. Brilhante.