Maldito despertador, sempre grita às sete horas da manhã. Os números piscam em vermelho, não sei por que tanto escândalo. Desligo, sem conseguir me levantar. O nariz confirma a suspeita: está muito frio. Só mais quinze minutos de sono, por favor. As pálpebras se encostam e disparam outro tumulto, não é possível, o tempo não passa tão rápido. Mais quinze, prometo. Já? Outros quinze, última vez! Caramba, oito horas, agora preciso correr!
Ducha rápida para acordar, pego o primeiro terno no armário, um iogurte de morango, as chaves do carro e me mando para o elevador. Toda essa pressa para ficar parado no trânsito, hora de tomar o iogurte. Finalmente, consigo engatar a segunda marcha e o mundo começa a fluir. De repente, um objeto não identificado pilotado por um completo imbecil se joga na minha direção. São longos segundos esperando o pneu acabar de gemer e rezando para a lata ficar quieta. Filho da puta! Corno! Vai aprender a dirigir, motoboy desgraçado! Como é que eu vou limpar a merda desse iogurte agora, tenho reunião daqui a pouco.
O susto passou, a adrenalina diminui no sangue, enfim chego à garagem do escritório. Estacionamento cheio, levo mais uns minutos até encontrar uma vaga. Milagrosamente, minha roupa escapou da pirotecnia de morango. O carro, por fora, também está ok. Andando até o elevador passo por um Porsche Cayenne es-pe-ta-cu-lar. Ainda vou ter um desses, trabalho todo dia para isso. E ralo muito, nunca ganhei nada sem esforço. O dono do Porsche não, esse tem vida mole. Nasceu em família rica, abriu a empresa com dinheiro do pai. Aí é fácil, é só contratar uns pés-rapados como eu e aproveitar a vida na casa de campo.
A reunião foi boa, produtiva, estendeu-se até quase o meio dia. Que fome, o iogurte está fazendo falta, vou almoçar bem hoje. Chamo os colegas, decidimos comer num restaurante de carnes ótimo, fica a uns dois quarteirões, do outro lado da avenida. O único ponto ruim é a favelinha que tem no caminho. Montaram uns barracos bem na calçada, obrigando todo mundo a passar pela rua para seguir caminho. E o pior é que insistem em pedir esmola. Eu trabalho para conseguir dinheiro, não fico no meio da rua choramingando, são todos uns vagabundos. Eu finjo que ignoro, sigo andando e se me encherem, chamo a polícia.
Nem como o couvert, prefiro deixar mais espaço para a carne. Um entrecote macio, mal passado, sangrando deliciosamente a cada corte. O molho então, sensacional, típico parisiense, perfumado. A batata, perfeita. Adiciono um pouco de sal moído na batata, pimenta na carne. A carne se dissolve na primeira mordida, o sabor inunda a boca, a língua sente o aroma do molho, êxtase puro. O garçom se aproxima, oferece mais um pedaço de entrecote, mais batata, à vontade. Para finalizar, uma bela mousse de chocolate, duas na verdade.
Volto rápido para o trabalho, nova reunião às quinze horas, desta vez com a minha equipe. O pessoal é muito ruim, tenho que explicar tudo várias vezes. A única razão da empresa sobreviver tem nome, o meu. Esses despreparados nunca vão chegar ao meu nível, não tem iniciativa, bom senso. Só servem para descarregar o trabalho operacional, não posso perder meu tempo com essas babaquices.
No fim do dia, encontro os amigos. Muito vinho para esquentar, bons petiscos, adoro o canapé de queijo brie com damasco. Música boa, gente bonita, mulheres lindas. Hora de aproveitar. O maldito despertador volta a gritar, novamente às sete horas da manhã, números piscando em vermelho, cansaço extremo. Olho para o lado, agradeço a Deus por não ter ninguém ali, sabe-se lá qual seria a surpresa. Lembrança vaga de mulheres nuas na piscina, um casal transando no sofá, e só. Só mais quinze minutos de sono, por favor.
Christian Wickert
17.05.2012