Sete pecados crônicos

Maldito despertador, sempre grita às sete horas da manhã. Os números piscam em vermelho, não sei por que tanto escândalo. Desligo, sem conseguir me levantar. O nariz confirma a suspeita: está muito frio. Só mais quinze minutos de sono, por favor. As pálpebras se encostam e disparam outro tumulto, não é possível, o tempo não passa tão rápido. Mais quinze, prometo. Já? Outros quinze, última vez! Caramba, oito horas, agora preciso correr!

Ducha rápida para acordar, pego o primeiro terno no armário, um iogurte de morango, as chaves do carro e me mando para o elevador. Toda essa pressa para ficar parado no trânsito, hora de tomar o iogurte. Finalmente, consigo engatar a segunda marcha e o mundo começa a fluir. De repente, um objeto não identificado pilotado por um completo imbecil se joga na minha direção. São longos segundos esperando o pneu acabar de gemer e rezando para a lata ficar quieta. Filho da puta! Corno! Vai aprender a dirigir, motoboy desgraçado! Como é que eu vou limpar a merda desse iogurte agora, tenho reunião daqui a pouco.

Continuar lendo

O METRO NENHUM

O poema “A Poesia” de Francisco Alvim é o responsável pelo nome de seu livro mais recente: “O Metro Nenhum”. Trata-se do primeiro livro de Chico Alvim desde “O Elefante” de 2000. Atraído pelo título, mergulhei no livro e me deparei com detalhes milimétricos da composição deste poema.

O poema é curto, vinte e três linhas divididas em duas estrofes. Não é simétrico, a primeira estrofe tem treze linhas e a segunda dez, não tem estrutura rígida de versos e rimas. Essa assimetria é apenas um breve e simples exemplo da profunda distância entre a abordagem de cada estrofe. O espaço de uma linha em branco entre as estrofes ilude, transmite uma aparente proximidade, uma continuação, quando na verdade o leitor desprevenido é pego de surpresa.

Continuar lendo

Seleção nada natural

Uma viagem de ônibus não parece ser o convite mais interessante para um programa de férias. Principalmente, se for uma viagem no fim do dia, clima quente, ônibus cheio, destino distante. Companhia é tudo nessa vida, e um trajeto desses ao lado de Rubens Figueiredo em “Passageiro do fim do dia” pode transcender o senso comum. Uma verdadeira epopeia moderna do proletariado para sobreviver à seleção natural.

Seria possível isso, um darwinismo do século XXI? A literatura pós-moderna aborda insistentemente a jornada do assalariado, mas desta vez há de fato uma analogia às teorias darwinianas, o que justifica combater o melancólico impulso de largar o livro na estante da loja.

Continuar lendo

Retórica e Pinóquio

Este post é mais técnico, trata-se de uma análise sobre os recursos retóricos utilizados por Carlo Collodi na formação do ethos do personagem Pinóquio.

Carlo Collodi é o pseudônimo de Carlo Lorenzini, nascido em Florença, em 1826, berço do renascentismo. Ele escreveu sob o pseudônimo de Carlo Collodi, em referência ao vilarejo de sua mãe.

Pinóquio foi escrito inicialmente em pequenos capítulos, publicados em um jornal infantil, com o nome de “Storia de um burattino” (História de um boneco). Recentemente, foi reeditado no Brasil com uma edição de luxo da Cosac Naify, traduzida por Ivo Barroso com posfácio de Ítalo Calvino.

Continuar lendo